Sempre insista. Fale mais do que seja possível pensar. Insista. Temos que ter a capacidade de superar as resistências. Toda primeira conversa enfrentará uma série de inconvenientes. Mas insista. Não recue com a gafe, com o estardalhaço, com a vergonha. Siga adiante. Comece a rir sozinha. Rir é receber a pergunta: o que você está rindo? Rir é ser perguntado. Não há motivo para rir, rir é se abraçar. Minha risada é meu gemido público. Acordar me deixa excitado.
Talvez aquela amiga não queira namorá-lo para não estragar a amizade. Portanto, diga: quero hoje estragar nossa amizade. Estragar de jeito. Arruinar nossa amizade. Corromper nossa amizade.
Estrague fundo, o amor pode estar recolhido nela. Mas não aceite tão rápido o que ela não acredita. É disfarce, vivemos disfarçados de normalzinho, de ponderado, de retraído, porque a verdade quando surge faz atitudes impensadas, como comer algodão-doce nesta terça-feira diante de uma escola de normalistas. Que saudades de acenar para uma freira dirigindo um fusca. Deus é uma freira dirigindo um fusca. Tenho saudades de me exibir cortando laranjas. As tiras simétricas, os cabelos loiros da laranjeira. Tenho saudade de passear com a minha laranjeira.
Não se explique, insista. Eu não vou ficar esperando alguém me salvar. Eu mesmo me salvo. Eu mesmo me arrumo para a loucura.
Insista. O apaixonado cria sua boca. Cria sua boca para cada boca. Caso tenha prometido ir atrás dele, vá. Telefone, ainda que atrasada dois anos da promessa. Volte atrás, não queria pensar com os olhos, a boca são olhos mais atentos.
Não se intimide ao encontrar seu homem no momento errado. É sempre o momento errado. Seja o momento errado da vida dele. Mas seja parte da vida dele.
Seja o erro mais contundente da vida dele. Seja a vida do seu erro, para ele errar mais seguido.
Talvez aquele amigo não converse para manter a aparência de misterioso. Talvez ele nem saiba conversar, seja incompetente. Insista. Uma hora ele vai tomar um porre do seu silêncio, sentar no meio-fio e falar aramaico. Todo homem guardado uma hora fala aramaico. Insista, esteja perto para o sermão dos pássaros no viaduto.
A vida mete medo quando ela não é formalidade, não temos como nos defender do que parte dos dentes. Tenha um medo assombroso da vida, que é mais justo, deixe a morte com ciúme e inveja, deixe a morte sem dançar.
Não fique articulando frases inteligentes, comoventes, certas. Insista. Sei o valor de uma fantasia, mas insista. Tropeçar ainda é andar, pedir desculpa ainda é avançar, concentre-se na dispersão.
Ninguém quer falar com ninguém. Mas insista. Na sala do dentista, no trem, no ônibus, no elevador. Insista. O que mais precisamos é estranheza para reencontrar a intimidade. Não há nada íntimo que não tenha sido estranho um dia. Seja estranho com o ascensorista, com o porteiro do prédio, com a colega. Declare-se apaixonado antecipadamente. Depois encontre um jeito de pagar. Ame por empréstimo. Ame devendo. Ame falindo.
Mas não crie arrependimentos por aquilo que não foi feito. Sejamos mais reais em nossas dores.
Tudo o que não aconteceu é perfeito. Dê chance para a imperfeição. Insista.
Estou cansado de me defender - sou só ataque. Insisto.
Ela vai envelhecer para o carteiro, que passa por ela às 11h, com sua sacola azul e seu escapulário sobre a camisa amarela. Ela vai envelhecer para os colegas do Ensino Fundamental. Ela vai envelhecer para suas amigas do Inglês. Ela vai envelhecer para seus vizinhos, que disputam orquídeas nas varandas. Ela vai envelhecer para seus amigos de infância, que somente conhece pelos apelidos. Ela vai envelhecer para seus animais de estimação, mortos e vivos, lembrados ou esquecidos. Ela vai envelhecer para a floreira da esquina. Ela vai envelhecer para a menina da janela que espera a mãe voltar do almoço. Ela vai envelhecer para seus filhos, que comentarão com piedade entre si que ela já não é a mesma. Ela vai envelhecer para seus alunos, que ainda dirão que está conservada. Ela vai envelhecer para as balconistas do mercado, do banco, das lojas, que não se incomodarão em verificar o saldo. Ela vai envelhecer mudando de roupa, conferindo o batom no espelho, alisando o quadril pelos bolsos de trás. Ela vai envelhecer a cada gripe mal curada, a cada choro engasgado. Ela vai envelhecer ao estender suas toalhas. Ela vai envelhecer ao aproximar incrivelmente os olhos dos livros. Ela vai envelhecer em sua melhor risada. Ela vai envelhecer ao renovar a carteira de identidade. Ela vai envelhecer ao cobrir as rasuras da geladeira com imãs, as falhas das mesas com fotos. Ela vai envelhecer para seus irmãos que moram longe. Ela vai envelhecer quando alguém abraçá-la na rua: “não acredito que é você”. Ela vai envelhecer na primeira reforma da casa, mais ainda ao migrar de casa. Ela vai envelhecer ao desistir da calça de cintura baixa. Ela vai envelhecer para seu analista. Ela vai envelhecer para seus colegas de trabalho. Ela vai envelhecer para os garçons, para os mendigos, para os vendedores de jornais na sinaleira. Ela vai envelhecer, por mais que seu rosto não se apresse no bom-dia ou suas pernas cancelem o boa-noite. Ela vai envelhecer descendo as escadas. Ela vai envelhecer ao sair do cinema. Ela vai envelhecer quando não for compreendida, continuará envelhecendo ao ser entendida. Ela vai envelhecer tomando banho de sol, de mar, de vento. Ela vai envelhecer ao perder a contagem dos números romanos. Ela vai envelhecer com as veias saltando, com a pele de vidro. Ela vai envelhecer ao trocar as sardas pelas manchas. Ela vai envelhecer ao suspirar mais do que o chá. Ela vai envelhecer com sapatos usados uma única vez. Ela vai envelhecer com vales de números quebrados. Ela vai envelhecer ao recuperar sua boca no buquê do vinho. Ela vai envelhecer ao não dar conta do serviço. Ela vai envelhecer pela cervical. Ela vai envelhecer ao escorregar os pés para o fundo das poltronas do avião e do ônibus. Ela vai envelhecer ao deixar cair o guardanapo de pano. Ela vai envelhecer ao escutar a música favorita de sua adolescência. Ela vai envelhecer ao tingir seus cabelos brancos. Ela vai envelhecer ao sentir a urgência do casaco dentro da cama. Ela vai envelhecer como um pião envelhece na corda, como uma colcha envelhece em seus retalhos, como uma criança envelhece ao aprender a escrever.
Ela vai envelhecer para os outros. Todos os outros.
Eu é que não saberei de nada disso envelhecendo com ela.
Amigos de meu pai apareciam em nossa casa na infância a qualquer momento. A campainha mal bocejava e trabalhava de novo. Nossos cães envelheceram histéricos.
Eu não previa se o almoço e a janta seriam para os cinco da família ou para quinze. A mãe subia nas tamancas com o improviso permanente e a dança das cadeiras. Mas logo se enredava numa conversa e deixava de sofrer com o assunto. Tinha que arrumar cardápio de emergência para atender um batalhão. Com freqüência, instruía algum filho a sair discretamente pelo portão de lado e passar no mercado.
Desde essa época, minha alma familiar tem vocação para hotel. Eu tomava atitude semelhante, gostava quando os colegas freqüentavam a minha residência. Com um pátio, uma garagem e uma bola, era o menino rico da escola pública. A aula iniciava às 13h30, o boleiro Iraji inventava de me esperar para ir à escola com tediosas duas horas de antecedência. Permanecia mudo no muro branco da esquina, com a mochila de lona no chão. Todo dia era igual: eu o reconhecia, convencia a mãe e o convidava para almoçar junto. Nunca veio direto. A senha dele era encostar-se na murada e confiar na possibilidade de ser visto. Não chamava atenção. Logo que o procurava, dissuadia de que já cumprira a refeição. Na mesa, por suas repetições e desembaraço de tigre, descobríamos que isso era uma mentira educada.
Não compreendo se a culpa é do celular, do e-mail, da socialização do telefone. O excesso de canais para se encontrar tem contribuído somente para provocar desencontros.
Perdemos a mística da casualidade. Amigos não batem à porta. Quando batem, sem anunciar o movimento, são indesejados.
Para uma visita, deve-se ligar e pedir autorização. O marido falará antes com a mulher. A mulher falará com o marido. Os filhos serão avisados. Descortina-se uma votação de condomínio às pressas. Prepara-se o acaso com antecedência. Só falta expedir mandado de segurança. Não há mais amizade, porém consultas. Tudo é agendado como um consultório. O final de semana é também uma agenda. Transformamos o sábado e o domingo numa extensão do nosso expediente.
Ai de quem surgir de repente apertando o interfone e interromper o sono, a janta e o jogo de futebol. “Como que não ligou?”, reclamarão os anfitriões.
Ele será massacrado de indiretas ou provocará uma discussão de casal ou os residentes fingirão que não há ninguém. Usarão uma desculpa na ponta da língua para espantar a intimidade: reunião no início da manhã, viagem, doença.
Ai de quem desejar pedir ajuda e conselho, ai de quem contrai uma pontada súbita de desespero e parte com suas pernas ingênuas em direção ao endereço de um nome mais leal. Ai de quem depende dos olhos nos olhos de uma companhia para se ouvir melhor. Ai de quem sofre de um amor separado e de solidão no fim de semana e está prestes a enlouquecer de ansiedade.
Antes os amigos ajudavam com os problemas, hoje os amigos são vistos como os problemas.
Por serem amigos, eles entenderão, assim acreditamos, e perdoamos nossa intolerância. Não nos permitimos interferências em nossos planos, roteiros e rotinas.
Antes os amigos corriam para dentro da família, hoje os amigos são corridos (o que sobrará aos inimigos?)
Temos mais comida na mesa. Bem mais. Nossa avareza está engordando.